terça-feira, novembro 30, 2004

Perspectiva do subterrâneo

"So much trouble in the world and the sun is still blistering"
Sempre olhei para o que me rodeia como se tratasse de um mundo exterior do qual eu não fazia parte, nem queria fazer.
Nunca cheguei a saber se acontece com toda a gente em determinada altura. A mim, esta distância faz-me sentir diferente. Faz me sentir grande e ver as coisas na sua plenitude, belas e sublimes como qualquer outro fenómeno da natureza que apreciamos, apesar de não compreendermos.
Conviver todos os dias com sentimentos, personalidades, gestos, atitudes e acontecimentos que se arrastam para dentro da nossa vida levou me a viver numa espécie de distancia que se torna cada vez mais compensadora à medida que aprendi a ver estes acontecimentos como algo acima de tudo verdadeiro que exalta a própria natureza humana e que me permite aproximar de novo das pessoas e absorver e viver intensamente na minha perspectiva uma alegria e felicidade extremas, incompreensível. E isto via-o em tudo, principalmente quando os outros pareciam não ver. Posso ainda dizer que este estado parece-me directamente ligado ao subterrâneo e incorre no problema de levar a pessoa a um afastamento da realidade que por vezes não se compadece com as exigências sociais e profissionais do mundo em que vivemos. Mas é a faceta mais bela do subterrâneo e não podia deixar de partilhar pela forma como me fez acreditar que a essência boa das coisas e do espírito, tal como um milagre ou um fenómeno natural acontece diariamente basta mudar a perspectiva em que olhamos à nossa volta.
Aprender a viver com o subterrâneo implica saber olhar para o que nos rodeia de uma forma diferente. Implica sentirmo-nos diferentes e ser essa diferença que nos distancia do comum. Talvez seja esse o motivo de sentirmos necessidade de encontrar uma espécie de alma gémea, capaz de compreender e olhar para as coisas belas e sublimes como nós olhamos. Talvez seja isso o amor e não apenas o sentimento egoísta de quem sente que partilha algo... quando apenas o possui por breves momentos do tempo.

domingo, novembro 21, 2004

O Subterrâneo

So… I’ve decided to take my work back underground, to stop it falling into the wrong hands”.

A penitência de cada um tem lugar neste subterrâneo. É como pedir perdão de qualquer coisa ou deixar jorrar os sentimentos que durante dias andaram cá dentro a fervilhar. Mas de facto, de que podemos nós falar com mais prazer senão de nós próprios?
Começa aqui o meu trabalho e as minhas reflexões.

Não deixa de ser curioso, retirarmos prazer destas confissões que nos atormentam… e acrescento que o melhor é não fazer nada! Viver assim na inércia consciente dos sentidos enquanto esperamos, embora sofrendo e invejando não estar como cremos ser o melhor para nós. Bem hajam os que como eu, também preferem o subterrâneo. Aprendemos a lidar com ele.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Disponível, Descartável, Reciclável, Reutilizável

Assim sou eu.

Esforço-me por ser daquelas pessoas que estão sempre disponíveis para os amigos. Gosto de estar lá quando eles precisam, ou querem falar ou estar comigo. Consigo até orgulhar-me disso, por considerar ser essa uma das minhas poucas qualidades.

E redobro esse esforço para ela. Não apenas por a amar desmesuradamente, mas porque sei que a vida dela é difícil e ingrata, e que ela me considera um apoio, um ombro amigo, um ouvido atento; uma pessoa a quem ela pode desabafar, ao fim do dia, ou pura e simplesmente uma voz amiga que a faça alhear-se, ainda que por instantes, do resto do seu mundo.

Desde há uns tempos para esta parte, comecei a suspeitar que - infelizmente - para ela não passava disso: acima de tudo, um ouvido atento... e descartável. E cada vez tenho mais a certeza disso. Ela liga-me no fim do dia, e conta-me as desventuras daquela sua jornada: curiosidades, novidades, acontecimentos, eventos, sentimentos, entendimentos e desentendimentos... E eu ouço, comento, e apoio. Solidário, empatizo com os sentimentos dela, e muitas vezes acabo por transferi-los para mim. Tento dar-lhe toda a alegria que possuo, para a ajudar no processo.

Então, ela desliga. Deixa-me a braços com a solidão em que me encontrava, agora agravada pela redução mais ou menos drástica da pouca alegria de que dispunha. Mais ainda, deixa-me a pensar nela, e no quanto gostava de a ver, de estar com ela, de ser feliz com ela... e na impossibilidade disso tudo acontecer.
Às vezes - raramente - tenta-me passar alguma da alegria dela, mas muitas vezes não a apanho - porque não é compatível com a minha, ou porque já estou triste demais para estender os braços.
Agora, resta-me tentar reciclar as minhas energias, e tentar reaproveitá-las para regenerar o ânimo que perdi; uma noite de sono e a azáfama do trabalho ajudam a limpar algum do abatimento, e o convívio com os colegas ajuda a recuperar um pouco a boa-disposição.

Estou regenerado. Mais ou menos, dependendo da mossa, mas o suficiente para aguentar o dia. E o dia passa, e sinto que estou a sobreviver, mas não consigo deixar de pensar nela - sei que não devo, mas simplesmente não consigo... E ela liga outra vez, e eu fico feliz. Penso: "ela estava a pensar em mim, e ligou-me"; sinto-me amado.
Logo descubro que ela apenas me ligou para voltar a descarregar. Ou então, porque precisa do ombro amigo. Às vezes, até combinamos uma ida ao cinema, mas agora até acho que isso só serve para ela espairecer: porque ela gosta de cinema, e não tem mais companhia; não por gostar de ir *comigo*...

Sinto-me usado. Descartado, reciclado e reutilizado para além da resistência da minha matéria.

E, no entanto, continuo disponível. Não consigo deixar de está-lo. Sempre que ela me liga, desperta-me o sorriso idiota, a esperança que talvez seja desta vez que as coisas correrão bem, e ela queira dar-me uma hipótese. O meu coração dispara, frenético na sua batida quase arritmada. As palavras saem-me tremidas - quando saem. Tento fazer com que a junção delas tenha nexo - pelo menos, algum.

E então ela diz-me mais uma vez que não pode encontrar-se comigo. Raras são as ocasiões em que pode, mas aí há sempre condições: ou o filme é bom, ou então é porque a prima dela - e o amigo da prima, muitas vezes - também vão, porque assim ela "aproveita para estar com eles, também", o que aumenta o "rendimento" daquelas duas ou três horas.
Volto, então, a aperceber-me que sou um acessório, um móbil, uma desculpa para ela fazer outra coisa que não voltar para casa, e tratar do animais, do pai, da mãe e do irmão, dos tios, primos e avós - e, quiçá, da contabilidade, dos estudos, dos filmes que o irmão tirou da net, dos puzzles que comprou, dela própria, ou do seu descanso... Todos estes, e outros que tais, e que são todos geralmente mais importantes que eu. A não ser que "eu" venha anexado a um bom filme, uma prima e um amigo, um dia favorável, um mês de antecedência a um qualquer exame, ou uma repentina e conveniente necessidade de fuga.

Estou a ser egoísta. Ou estarei?
Egoísta ou não, estou frustrado e cansado. Esgotado. (Ou estarei?)

quarta-feira, novembro 17, 2004

Unreturned Love

Curioso como algumas coisas parecem vir à procura de nós, quando não procuramos por elas, mas sabemos que elas lá estão.

Pode não fazer muito sentido, o que acabo de dizer. Para mim, faz.

Senão, porque sonho eu todas as noites com aquilo que tento esquecer? Porque serei assolado, diariamente, por visões daquilo que nunca irei ter? Porque, quando menos espero, a frase mais simples, ou a letra de uma música de que nunca me tinha apercebido antes, ou mesmo uma única palavra, acordam aquilo que tanto me esforço para adormecer?

Google: procuro imagens para por no Messenger. Tópico: Feeling Low (sentimento geral do dia). Entre imagens inconsequentes, encontro uma com o título "Unreturned Love" - e a minha atenção é imediatamente captada pela visão de um grupo de cadeiras vermelhas de uma sala de cinema, tenuemente iluminadas; a do meio, fruto do "flash" ou de um outro efeito paranormal, brilha com um vermelho vivo, muito diferente do tom sombrio das outras.

Não fosse o estado de alma em que me encontro provocado pelo cruel e esmagador sentimento de um amor não correspondido, o título da imagem ser-me-ia inconsequente. Não fosse o facto das minhas duas últimas idas ao cinema terem sido desprovidas de companhia - apesar de ter tentado obtê-la - a cadeira que brilha, isolada, não me teria apertado o coração. Não fosse o facto de me ver rodeado de casais felizes, onde quer que vá, e não ser capaz de alcançar o mesmo, por mais que tente brilhar, e não me teria afeiçoado tanto a uma simples fotografia...

E volto ao início: "Curioso como algumas coisas parecem vir à procura de nós, quando não procuramos por elas, mas sabemos que elas lá estão." Eu sei que o meu amor existe. Tento esquecê-lo, pô-lo de lado, alhear-me dele, mas ele tem sempre uma forma esquiva de se esgueirar da prisão onde o coloco, para me voltar a atormentar.

Ou será que, deliberada ou involuntariamente, sou eu que me esqueço de trancar a porta?


segunda-feira, novembro 15, 2004

Whatever happened to the world I once knew?

O meu primeiro post tem título em inglês. Porquê? É simples: porque foi assim que a frase saíu da minha mente.
Penso tantas vezes em inglês como em português; mais ainda, quando quero pensar numa frase simples, mas cujo conteúdo seja complexo. Porque em inglês há sempre "aquela" maneira de dizer as coisas, que no português soaria a banal.

Este foi o meu tópico para o dia de hoje: "onde está o mundo que eu conhecia? o que lhe aconteceu?". Já há muito que tento perceber o que se passou; para onde ele foi, e porque decidiu abandonar-me. Desde sábado que esse pensamento me voltou a assolar, como aquela alergia de Primavera de que já nos esquecemos, mas que insiste em voltar quando já não nos lembramos dela.

Eu era feliz, no meu mundo. Inocente, mas feliz. A minha vida era certa, segura, ao ponto de poder depender dela. E eu era feliz, na minha inocência - na minha ignorância...
Hoje sou menos ignorante. Descobri outras coisas - coisas novas - no meu mundo! Coisas maravilhosas; outras menos; outras nada. E deixei de ser feliz e inocente, naquela quase constante certeza.
Hoje sou Adão, depois de ter sido tentado com a maçã, e ter soçobrado. Vejo o mundo como ele é. Pior: vejo o mundo como ele não devia ser! Cruel, injusto, desumano... errado.
E não o percebo.
E não sei o que fazer.
E não sei se ainda sei viver.

Às vezes junto as energias que consigo reunir, e luto. Debato-me, e com ânimo e esperança removo as pedras do túnel que se acabou de desmoronar à minha frente. Uma a uma, elas vão desaparecendo, e a luz que outrora via ao fundo reaparece e aquece-me o rosto, como uma carícia de alguém que nos ama. Agora estou no pico da minha esperança, aquecida pela vontade de me reunir com a luz que me chama e me afaga o rosto; com determinação, removo as últimas pedras que me impedem de prosseguir... apenas para ser fustigado por um novo desmoronamento. As pedras que voltam a cair ferem-me - ferem a minha carne, e o meu espírito. Mais fraco, magoado, e com a esperança despedaçada, tenho que começar tudo de novo.

Para já - sozinho ou com alguma ajuda - tenho conseguido recuperar-me, e voltar à luta. Mas não sei se serei sempre capaz de o fazer. E não sei quanto mais tempo conseguirei aguentar.
Só sei que, de cada vez que recomeço, a esperança parece ser menor - e os desmoronamentos mais frequentes...