Assim sou eu.
Esforço-me por ser daquelas pessoas que estão sempre disponíveis para os amigos. Gosto de estar lá quando eles precisam, ou querem falar ou estar comigo. Consigo até orgulhar-me disso, por considerar ser essa uma das minhas poucas qualidades.
E redobro esse esforço para ela. Não apenas por a amar desmesuradamente, mas porque sei que a vida dela é difícil e ingrata, e que ela me considera um apoio, um ombro amigo, um ouvido atento; uma pessoa a quem ela pode desabafar, ao fim do dia, ou pura e simplesmente uma voz amiga que a faça alhear-se, ainda que por instantes, do resto do seu mundo.
Desde há uns tempos para esta parte, comecei a suspeitar que - infelizmente - para ela não passava disso: acima de tudo, um ouvido atento... e descartável. E cada vez tenho mais a certeza disso. Ela liga-me no fim do dia, e conta-me as desventuras daquela sua jornada: curiosidades, novidades, acontecimentos, eventos, sentimentos, entendimentos e desentendimentos... E eu ouço, comento, e apoio. Solidário, empatizo com os sentimentos dela, e muitas vezes acabo por transferi-los para mim. Tento dar-lhe toda a alegria que possuo, para a ajudar no processo.
Então, ela desliga. Deixa-me a braços com a solidão em que me encontrava, agora agravada pela redução mais ou menos drástica da pouca alegria de que dispunha. Mais ainda, deixa-me a pensar nela, e no quanto gostava de a ver, de estar com ela, de ser feliz com ela... e na impossibilidade disso tudo acontecer.
Às vezes - raramente - tenta-me passar alguma da alegria dela, mas muitas vezes não a apanho - porque não é compatível com a minha, ou porque já estou triste demais para estender os braços.
Agora, resta-me tentar reciclar as minhas energias, e tentar reaproveitá-las para regenerar o ânimo que perdi; uma noite de sono e a azáfama do trabalho ajudam a limpar algum do abatimento, e o convívio com os colegas ajuda a recuperar um pouco a boa-disposição.
Estou regenerado. Mais ou menos, dependendo da mossa, mas o suficiente para aguentar o dia. E o dia passa, e sinto que estou a sobreviver, mas não consigo deixar de pensar nela - sei que não devo, mas simplesmente não consigo... E ela liga outra vez, e eu fico feliz. Penso: "ela estava a pensar em mim, e ligou-me"; sinto-me amado.
Logo descubro que ela apenas me ligou para voltar a descarregar. Ou então, porque precisa do ombro amigo. Às vezes, até combinamos uma ida ao cinema, mas agora até acho que isso só serve para ela espairecer: porque ela gosta de cinema, e não tem mais companhia; não por gostar de ir *comigo*...
Sinto-me usado. Descartado, reciclado e reutilizado para além da resistência da minha matéria.
E, no entanto, continuo disponível. Não consigo deixar de está-lo. Sempre que ela me liga, desperta-me o sorriso idiota, a esperança que talvez seja desta vez que as coisas correrão bem, e ela queira dar-me uma hipótese. O meu coração dispara, frenético na sua batida quase arritmada. As palavras saem-me tremidas - quando saem. Tento fazer com que a junção delas tenha nexo - pelo menos, algum.
E então ela diz-me mais uma vez que não pode encontrar-se comigo. Raras são as ocasiões em que pode, mas aí há sempre condições: ou o filme é bom, ou então é porque a prima dela - e o amigo da prima, muitas vezes - também vão, porque assim ela "aproveita para estar com eles, também", o que aumenta o "rendimento" daquelas duas ou três horas.
Volto, então, a aperceber-me que sou um acessório, um móbil, uma desculpa para ela fazer outra coisa que não voltar para casa, e tratar do animais, do pai, da mãe e do irmão, dos tios, primos e avós - e, quiçá, da contabilidade, dos estudos, dos filmes que o irmão tirou da net, dos puzzles que comprou, dela própria, ou do seu descanso... Todos estes, e outros que tais, e que são todos geralmente mais importantes que eu. A não ser que "eu" venha anexado a um bom filme, uma prima e um amigo, um dia favorável, um mês de antecedência a um qualquer exame, ou uma repentina e conveniente necessidade de fuga.
Estou a ser egoísta. Ou estarei?
Egoísta ou não, estou frustrado e cansado. Esgotado. (Ou estarei?)