quarta-feira, janeiro 05, 2005

Mudanças

Muda o ano, mudam os problemas. Ou devo dizer: ano novo, problemas novos?...

Comecei o ano num pico de boa-disposição. Mal sabia eu que logo a seguir vinha o desfiladeiro.

O Natal trouxe um aliviar do stress emocional e físico que se acumulara nas duas semanas antecedentes. Foi, realmente, um tempo de paz e serenidade. A família juntou-se, os problemas foram-se esfumando, dando lugar à alegria e ao convívio salutares que sempre caracterizaram esta época - pelo menos para mim.
A semana seguinte foi tranquila, sem grandes evoluções, mas também sem vida. Foi tempo para descansar, repor energias, tentando libertar da mente os pensamentos mais angustiantes ou as ânsias mais fortes. O dia 31 chegou, então, veloz - pronto a animar e preparar o espírito para o ano que se avizinhava.

O jantar foi excelente, a companhia ainda mais. A diversão foi uma constante, a boa-disposição reinou, e os ânimos estavam altos. Tanto, que por pouco falhávamos a entrada em 2005...

3h da manhã: vamos justificar os 25€ do bilhete para a festa na Alfândega. Dividimos as pessoas pelos carros; o meu fica, por não ser preciso. Dirigimo-nos para a festa: a música parecia prometer, assim como o ambiente; chegados ao interior, e tudo se transfigura - a música deixa de o ser, torna-se quase insuportável o acotovelar constante das pessoas, a agressão do ar comprimido e expandido por demasiados decibeis libertados pelas colunas, e toda a artificialidade e incaracteristicidade daquele ambiente amorfo quase que arruinou tudo o que se tinha construído até então, não fosse a presença sempre agradável e amenizante dos amigos.

6h da manhã, e finalmente saímos - para alívio de todos. Estava determinado a não deixar que aquele ficasse registado como um momento mau do início do ano - até porque só o facto de estar com amigos já fez com que tudo valesse a pena. Volto de boleia até ao local onde tinha o carro; despeço-me, dirijo-me ao carro, abro a porta e... pedaços de vidro no banco de trás! ... ... ...

Apetecia-me gritar, chorar, correr, bater... mas toda esta multiplicidade de sensações acabou por se combinar, dando lugar à consternação, e depois à razão e à conformação. O sentimento de revolta persistia, mas não havia nada a fazer senão avaliar os estragos, e ir embora.
Vasculho o interior do carro - mala incluída - para notar que apenas faltavam uma bolsa porta-CDs com cerca de 20 CDs - dos quais mais de metade eram gravados -, e caixas de CDs vazias, que se encontravam no apoio central de braços... De resto, não faltava mais nada! Nem mesmo o kit de alta-voz que estava na tomada de isqueiro, à vista, e que valia tanto quanto os CDs todos!
Agora não sabia se me havia de sentir contente por não faltar mais nada, ou zangado pela futilidade de todo o acto. Mais uma vez, resignei-me e decidi tentar continuar com a minha vida, olhando para as soluções e não para os problemas. Dei uma olhada rápida aos carros de amigos que estavam perto do meu - cujos donos ainda tinham ficado na Alfândega -, para constatar que estavam incólumes. Um pouco mais satisfeito - e um pouco mais zangado por ter sido "a escolha da noite", dado que aparentemente mais nenhum carro tinha sido assaltado - liguei ao amigo que me tinha dado boleia, para desabafar, e fui para casa, entregar-me ao sono que há muito reclamava controlo do meu corpo.

Desde então, o mundo pareceu virar-se contra mim.

Começou com a minha mãe, que me decidiu atacar com precisamente o mesmo infortúnio de que eu tinha acabado de ser vítima, como se a culpa minha fosse, e por ela merecesse ser castigado. Foi como se de uma facada nas costas se tratasse: nunca pensei que ela fosse capaz de, naquela situação, fazer tão adverso, sádico e sarcástico comentário... Fiquei imediatamente desiludido, zangado e triste; ao ponto de ainda hoje me ser difícil encará-la com os mesmos olhos.

"O ponto de viragem" de que falava há uns dias parece ter-se virado outra vez, completando os 360º, e afastando-se de mim a todo o pano...

Para terminar, a mensagem de ajuda que tinha enviado a uma amiga, num momento em que senti que ela dela precisava - e que há muito julgava lhe ser devida, da minha parte -, e em que concentrei toda a minha solidariedade e boa-vontade, parece ter tido o efeito oposto, pois tanto não obtive resposta, como mais nenhum contacto com ela desde então... E já não seria a primeira vez que tento ajudá-la, com todo o meu coração, e acabo por ser mal interpretado. Não consigo compreender como, com ela, as melhores intenções são sempre aquelas com os efeitos mais nefastos...

Estou a tentar aguentar, e manter a esperança que o ano melhore. Ainda me esforço por encarar o futuro com optimismo, mas não sei quanto tempo mais conseguirei resistir ao ar viciado que paira à minha volta. Lá fora o Sol brilha sempre, mas quando olho para cima de mim, só vejo a nuvem escura que insiste em me ir molhando.

Se tivesse escolha, preferia nunca ter chegado a 2005... Agora que cá estou, só desejo poder voltar atrás, mas estou limitado a seguir em frente. Resignado à cruel constância do avanço do tempo, deixo-me ir: não há nada a fazer, senão esperar pelo que o destino me trará...